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por G.K. Chesterton, publicado em `Alarms and Discursions' (1910) - trad. Igor Barbosa
Minha próxima obra em cinco volumes, “O Desprezo do Queijo pela Literatura Européia”, é um trabalho tão imprecedente e laboriosamente detalhado que é de duvidar que eu consiga viver para concluí-lo. Podemos permitir, portanto, que algumas inundações de uma tal fonte de informação salpiquem estas páginas. Não posso ainda explicar completamente o desprezo a que me refiro. Poetas têm se calado misteriosamente sobre o tema do queijo. Virgílio, se bem me lembro, refere-se a ele várias vezes, mas com grande reprovação dos Romanos. Ele não se atira ao queijo. O único outro poeta, que eu me lembre agora, que parece ter tido alguma sensibilidade quanto a este tópico foi o autor anônimo dos versos que dizem “Se todas as árvores fossem pão com queijo” – o que é de fato uma visão rica e gigantesca da mais elevada glutonia. Se todas as árvores fossem pão com queijo haveria um considerável desmatamento em qualquer região da Inglaterra em que eu vivesse. Ferozes e fartas florestas escapariam de mim, tão rápido quanto outrora correram por causa de Orfeu. Exceto Virgílio e este poeta anônimo, não consigo me lembrar de nenhum outro poema sobre queijo. No entanto, tudo que se requer para a melhor poesia está lá. É uma palavra curta e forte; rima com “desejo” e “beijo” (um ponto essencial); e até as civilizações modernas concordam que tem uma sonoridade enfática. A própria substância é imaginativa. É antiga – às vezes no que se refere à unidade em questão, mas sempre quanto ao tipo e forma. É simples, sendo diretamente derivado do leite, que é uma das bebidas ancestrais, não facilmente corruptível com água gaseificada. Veja bem, eu espero que seja verdade (apesar de que foi só agora que pensei nisso) que os quatro rios do Éden eram leite, água, vinho e cerveja. Águas com gás somente vieram após a queda.
Mas o queijo tem outra qualidade, que é também a verdadeira alma do canto. Uma vez, batalhando para palestrar em vários lugares de uma vez, eu fiz uma excêntrica jornada através da Inglaterra, uma jornada de desenho tão irregular e mesmo ilógico que foi necessário que eu almoçasse por quatro dias seguidos em quatro tabernas de beira de estrada em quatro províncias diferentes. Em cada taberna só havia pão com queijo; e eu também não consigo imaginar porque alguém quereria mais que pão e queijo, se pudesse chegar a se fartar disso. Havia um nobre queijo wensleydale em Yorkshire, um queijo de Cheshire em Cheshire, e daí em diante. Ora, é exatamente neste ponto que a real e poética civilização difere desta civilização pobre e mecânica que nos escraviza. Maus hábitos são universais e rígidos, como o militarismo moderno. Bons costumes são universais e variados, como a cavalaria e a defesa de si mesmo. Tanto a boa quanto a má civilização nos cobrem como um teto, e nos protegem de tudo que está fora. Mas uma boa civilização se espalha sobre nós livre como uma árvore, variante e anárquica, porque vive. Uma civilização ruim se ergue e estica como um guarda-chuva – artificial, matemática no formato; uniforme, quando podia ser simplesmente universal. Assim é com o contraste entre as substâncias que variam e as que são as mesmas onde quer que se as encontre. Por um sábio imperativo celeste os homens foram levados a comer queijo, mas não o mesmo queijo. Por ser realmente universal, muda entre um vale e outro. Mas se compararmos, por exemplo, queijo com sabão (esta substância muitíssimo inferior), veremos que o sabão tende sempre a ser meramente sabão violeta ou sabão alfazema, remetidos logisticamente a todos os cantos do mundo. Se os peles-vermelhas usam sabão, é sabão violeta. Se o Dalai Lama usa sabão, é sabão alfazema. Não há nada sutilmente e misteriosamente budista, nada ternamente tibetano, no sabão dele. Eu suponho que o Dalai Lama não come queijo (ele não é digno de comê-lo), mas se comer é provavelmente um queijo local, com alguma relação real com sua vida e circunstâncias. Palitos de fósforo, comida enlatada, remédios pateteados são enviados ao mundo todo; mas não são produzidos no mundo todo. Portanto o que existe entre um tipo e outro destes produtos é uma mera identidade sem vida, nunca aquela quase invisível brincadeira das coisas que em todo canto são tiradas do solo, do leite no curral ou das frutas no pomar. Consegue-se um whisky com soda em todos os postos avançados do Império; por isso tantos imperialistas ficam loucos. Mas isso não é provar ou tocar um local, como na cidra de Devonshire ou nas uvas do Reno; isso não é se achegar a uma das nuances da miríade de cores que possui a Natureza, como no ato sagrado de comer queijo.
Quando eu fiz minha romaria pelas quatro tabernas de beira de estrada eu acabei indo a uma das grandes cidades do norte, e lá eu corri, veloz e inconsistentemente, para um restaurante grande e complicado, onde eu sabia que poderia comer muitas coisas além de pão com queijo. Eu podia comer isso também, aliás, ou pelo menos queria comer isso; mas fui secamente lembrado de que havia entrado em Babilônia, e deixado a Inglaterra para trás. O garçom me trouxe queijo, de fato, mas cortado em pedacinhos calculados; e o fato terrível é que em vez de um pão cristão, ele me trouxe biscoitos. Biscoitos – para quem tinha comido o queijo de quatro ótimas províncias! Biscoitos – para quem havia constatado novamente a santidade do antigo matrimônio entre o queijo e o pão! Eu me dirigi ao garçom em termos cálidos e sentimentais. Eu o perguntei quem ele era para separar o que o gênero humano uniu. Eu o perguntei se não sentia, como um artista, que uma substância firme mas maleável como o queijo combinava com uma substância firme e maleável, como o pão; comê-lo com biscoitos é como comê-lo com azulejos. Eu o perguntei se, ao rezar, ele era tão sardônico a ponto de pedir o biscoito nosso de cada dia. Ele me deu a entender, genericamente, que apenas obedecia um costume da Sociedade Moderna. Neste ponto eu decidi erguer a voz, não contra o garçom, mas contra a Sociedade Moderna, por este enorme e incomparável erro moderno.
Por Igor, 03:46 PM | 0 Comentários
Será verdade, então, que a identidade cultural brasileira é a própria diversidade cultural? Parece ser. Suponhamos, para a saúde e durabilidade deste texto, que o extrato concentrado de cultura brasileira seja uma roda de capoeira com Margareth Menezes, e não tenho motivos para duvidar que seja, acidentalmente.
É por isso que escrevi um "parece ser" lá em cima. Isso, meus amigos, é redigir um texto.
Nem venham ler pulando palavras e falar besteira nos comentários, ok? Vou parecer racista daqui a pouco. Nonetheless, meu avô paterno conseguiu a imensa proeza de nascer em 1888 e mesmo assim ser escravo até a adolescência. Você poderia dizer, se pedisse licença, que sendo a escravidão ilegal desde o momento em que ele nasceu, e a de filhos de escravos desde a lei anterior do ventre livre, ele foi escravizado não por ser negro, filho de negros também escravos, mas por ser azarado. E eu, com toda a educação que o sistema de cotas um dia talvez me proporcione, te mandaria pastar.
Buena. Eu ia dizendo que uma coisa será tão ou mais brasileira quanto mais tiver rodas de capoeira e Margareth Menezes, e isso me soou algo tão legal quanto dizer que uma coisa fica suficientemente americana se tiver 50 cent e um tio preto com bicho de pé, conhecedor de mojos, mississipesco. Tão legal quanto, e tão falso quanto, uma vez que all things american costumavam, até pouco tempo atrás, incluir uma boa e grossa dose de racismo ou no mínimo tensão racial.
Eu disse all things american referindo-me a todos os países dos continentes assim chamados americanos, vespucianos ou colombianos, permitindo até que vossa senhoria os chame de cristoforonianos se assim vos agrada. Olhar o Brasil por três minutos e negar que este é um paizinho fedido de racismo é sacanagem, não dá nem para começar a responder isso.
E mesmo assim, rodas de capoeira com Margareth Menezes continuam sendo uma merda, e é uma merda que um brainstorm tendo o Brasil como mote sempre será shitstorm. Como merda é uma coisa que acontece, segundo o livro dos provérbios de camisa, esperemos pelo dia em que, nos EUA e em todos os países que têm um choque racial como um dos elementos constitutivos, acontecerá o mesmo.
Mas não me levem a sério, são cinco da manhã e eu devo estar pensando besteira por ter assistido isto e isto, um atrás do outro, ontem de noite.
Por Igor, 08:01 AM | 0 Comentários

Por Igor, 07:01 PM | 3 Comentários
Acordei hoje querendo defender uma coisa indefensável, isto é, algo que ninguém tem coragem de defender por receio de parecer boçal, mas que pode ser perfeitamente elogiado, como os pombos, cuja defesa seguirá de premissas mais discutíveis e uma argumentação mais sutil, elaborada e complexa e que portanto ficará para uma próxima ocasião.
A lista de coisas que pensei em defender é esta:
1 - Charlie Brown Jr
2 - Zorra Total
3 - Telemarketing
4 - Pizza doce
5 - Antimônio
O que é obviamente uma lista falha. Não dá para falar bem de pizza doce. Sábado eu vi uma de brownie - São Sebastião, rogai por nós, pizza de brownie? No way, José.
É tão mais fácil reclamar.
Por Igor, 11:46 AM | 3 Comentários
Eu já disse aqui mesmo no blog que zeitgeist comigo é na pedrada, e continuaria sendo se eu não tivesse descoberto recentemente que pedrada agora tem conotação sexual. Não quero ser imaginado making sweet, sweet love to the zeitgeist. Agora chamo o exorcista.
Por outro lado, acho bom que a sexualidade empreste seus verbos dos quadros violentos da linguagem - prefiro termos como "pedrada" e "madeirada" a outros que correm mundo para descrever os naughty acts que o povo faz por aí. Lembro que, do único livro de Jorge Amado que li, a única coisa boa que me lembro era o verbo com que o velho comunista descrevia os atos físicos: Derrubar, as in "derrubar negrinhas na areia", coisa que, se eu fosse um pivete soteropolitano, acharia muito apropriado. Como não sou, não acho, e não apenas por ser casado como por não aprovar essas safadezas, não sairei derrubando branquinhas nem negrinhas na areia, até porque moro longe da praia.
Mas se, em algum momento, um ato sexual vai ser indicado verbalmente, que fiquemos assim: É uma luta. Tratemo-lo como tal. Isso me lembrou um trecho do Gustavo Corção, em que ele comparava o casamento a um duelo: Em ambos há padrinhos, que verificam a igualdade das armas e tentam uma última reconciliação. No casamento, as armas são muito desiguais, e as oportunidades de reconciliação serão muitíssimo abundantes, pois a duração da contenda entre os cônjuges é a mesma que a daquela entre os duelistas: até que a morte os separe.
Por Igor, 02:08 AM | 0 Comentários
É preciso às vezes aparecer, dar sinal de vida, já que a dona Mão Invisível resolveu brincar de peteca comigo e fica me atirando pra tudo quanto é lado, normalmente com uma internet móvel safadinha, safadinha, que não passa do conectando.
Então digo, para dizer algo, que acabei participando da tal hora lá de luz apagada - sem querer, porque fui ver pantera cor-de-rosa no dvd e como sói, apaguei a luz. Dando-me conta, já tinha ido, ido, ido, até que iu, modusque junto-me envergonhado às hordas que, para diminuir as emissões de CO, acendem uma vela no lugar da lâmpada 11 watts cuja energia vem de águas que caem.
No mais, escrevo pouco porque o tempo é curto e importa mais levar o filho a comprar brinquedos, comer comida de verdade, longe dos desertos em que meus criente me manda, e manter a Cintia tão, ahem, feliz quanto me seja possível. Nos intervalos, o próximo livro vai ganhando corpo. E quando digo aos mais próximos qual é o assunto dos poemas novos, há quem fique O_O (danke tiago), o que suponho ser bom sinal.
Continuem andando na linha nesta semana da paixão, que a páscoa já vem.
Por Igor, 03:07 PM | 1 Comentários
Muitos, se não todos nós, gostamos das apostas, que para quem não lembra, são como uma coincidência pré-combinada: Num determinado dia, todo mundo escreve um texto sobre alguma coisa.
Desta vez, eu sugeri que escrevêssemos sobre macarrão. E os mano e as mina concordaram, modusque lhes conto agora minha pacata quarta-feira de cinzas.
Apenas acabada a terça-feira gorda
bateu-me uma tremenda fome, e às minhas mãos,
na hora do almoço, um belo macarrão
chegou num prato branco de dourada borda.
Ainda em minha testa estava o borrão
da cruz feita de cinza, misturada à cor da
minha testa suada. A entrada foi açorda
à alentejana. O queijo, claro, parmesão,
bastante, sobre muito molho de tomate.
Acompanhando o almoço, foi bebido mate
gelado, e a sobremesa foi manjar de côco...
Comi, neste almoço, mais que o normal, um pouco,
mas cumpri o jejum. À noite veio o soco
da fome, que não deixa louco – apenas bate.
Vejam aqui os outros textos sobre o mesmo assunto.
Por Igor, 12:25 AM | 0 Comentários

Por Igor, 02:48 PM | 1 Comentários
Há uma lição em porcarias acidentais, como Showgirls, e planejadas, como Sinhá Boça: Os poderosos, os bem inseridos, aquelas pessoas que poderiam te ajudar sem nenhum prejuízo pessoal são exatamente o tipo de gente que vai te ferrar por qualquer merreca.
O que personagens como Dona Máxima, Manoelzinho Araújo e Jacques Le Bleu têm a ver com Zack Carey e Cristal Connors é a picaretagem, uma capacidade imensa de construir fortuna, prestígio e poder em cima de migalhas tomadas dos mais fracos.
Guardadas as proporções, todo mundo é um desgraçado ou um idiota, e tanto mais quanto mais se deu bem na vida. E isso Hollywood e a Globo não confessarão, por motivos óbvios.
E isso prova suficientemente a superioridade do Flamengo.
Por Igor, 03:17 PM | 2 Comentários
Voltei rapidamente para dizer que:
1 - Wagner & Beethoven e Coisas de Idiota já estão no portal, o que muito me alegra;
2 - Estou nisto
e nisto;
3 - A mão invisível do mercado continua me torcendo;
4 - Esse comercial de Red Bull, com o gato e Der Vogelfänger, é sensacional. Assim que alguém puser no youtube coloco aqui.
Até.
Por Igor, 01:13 PM | 1 Comentários